março 06, 2026
o primeiro dia
Olho lá para fora, para o chilrear dos pássaros e o barafustar dos galhos que reclamam mais alto que o próprio vento. Descobri agora, aos dezasseis anos, que o céu fica transparente à noite e que tudo aquilo que passa pelos nossos olhos durante esse momento é a imensidão das estrelas de onde viemos. Quero começar a tratar o silêncio como presença e não como vazio, procurar habitá-lo e dar-lhe uma cadeira onde se pode sentar confortavelmente comigo e, juntos, podemos trazer a escuridão permanente à vida de quem ousar olhar-nos de lado. Tenho passado os últimos anos do liceu entalada entre páginas de livros, numa biblioteca que tem mais ratos que pessoas, para minha felicidade. São os únicos amigues que tenho e a Cassandra, a bibliotecária voluntária, vá, se é que posso considerá-la uma verdadeira amiga. O que são amizades verdadeiras? Especialmente para quem está sempre em movimento como eu. Já fui expulsa de dois colégios e as minhas mães ameaçaram que terei de ir viver com a tia Betânia, beta de raiz, Tânia de nome, se continuar a grafitar "revolução" pelos corredores e a passar músicas de intervenção sem a autorização da "rádio escolar, estamos aqui para enCANTAR". Não posso arriscar viver com wannabe betas, tenho uma reputação a manter. É por isso que decidi criar este blogue "REINVENÇÃO", para vos inspirar a romper com este sistema de merda que nos torna reféns de nós próprios, entre a depressão e a desconexão com a natureza, sempre com os olhos postos na realeza. O meu nome é Ërvin e podem ter a certeza de que vão continuar a ouvir este nome: um dia vamos ter uma gótica melancólica, com um pombo de estimação e que só ouve música feita por mulheres e enbies, para presidente.
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